TREBLINKA

de SÉRGIO TRÉFAUT | 2016, 61’, ficção, ensaio | prod: Sérgio Tréfaut, Catarina Almeida

Rússia, Ucrânia e Polónia: um comboio fantasma a caminho dos campos de extermínio. As vozes dos sobreviventes relatam o que não é possível mostrar. «Houve um tempo em que sonhei que este passado nunca mais voltaria. Estava enganada. O passado está sempre aqui. Tenho horror a estações. É como se todos os comboios me levassem para Auschwitz, Dachau, Treblinka.»

Ficha técnica

Com Kirill Kashlikov, Isabel Ruth
Voz feminina Nina Guerra
Acordeonista Vitaly Koindratenko
Imagem João Ribeiro
Som Miguel Moraes Cabral
Som adicional Olivier Blanc
Montagem Pedro Marques
Realização Sérgio Tréfaut
Produção Catarina Almeida, Sérgio Tréfaut
Produção executiva [Ucrânia] Toy Pictures – Elena Lysenko
Correção de cor Paulo Américo – Bikini
Montagem de áudio e misturas Branko Neskov, Loudness Films
Música Hino da União Soviética Aleksandr Alexandrov
Oração El Malei Rachamim por Chief Cantor Shai Abramson
Preludio em mi menor Dimitriy Shostakovich interpretado por Vitaly Koindratenko
Música original Alfredo Costa Monteiro

Apoio financeiro

ICA
Ministério da Cultura
RTP

Distribuição internacional

Portugal Film – Agência Internacional de Cinema Português
www.portugalfilm.org

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Festivais e Prémios

PRÉMIOS

PRÉMIO MELHOR FILME – PERUGIA
PRÉMIO MELHOR FILME PORTUGUÊS – INDIELISBOA 2016
PRÉMIO DO JURI PANORAMA – SALVADOR
NOMEAÇÃO MELHOR FOTOGRAFIA – PRÉMIOS FENIX

festivais

Seleção Oficial VISIONS DU RÉEL (Nyon – Suiça) 2016 
Seleção Oficial MESSAGE TO MAN – São Petesburgo 2016 
Seleção Oficial Mostra de Cinema de São Paulo 2016 
Seleção Oficial Festival Internacional de Cine de Ourense 2016 
Seleção Oficial Festival de Direitos Humanos de Viena 2016 
Seleção Oficial Festival Internacional Punto de Vista 2017 
Seleção Oficial Festival Internacional de Cartagena 2017 
Seleção Oficial Festival Internacional de Edimburgo 2017 
Seleção Oficial Festival Internacional de Montevideo 2017

AS FONTES
TREBLINKA ouve as vozes de vários testemunhos do extermínio. A parte principal corresponde a excertos das memórias de Chil Rajchman cuja publicação teve lugar já neste século, após a morte do autor.
Chil Rajchman, um judeu polaco, foi detido com a irmã mais nova em 1942 e enviado para Treblinka, um campo onde foram exterminadas mais de 750.000 pessoas. Mal chegaram, a sua irmã foi enviada nas câmaras de gás, mas Chil Rajchman escapou à execução, trabalhando sob ameaças e espancamentos contínuos durante dez meses como barbeiro, separador de roupas, carregador de cadáveres, arrancador de dentes.
Em Agosto de 1943, houve uma revolta no campo e Rajchman foi um dos poucos que conseguiu escapar vivo. Em 1945, passou a escrito este testemunho único, que só foi publicado pelos seus filhos no início do século XXI.

NOTA DO REALIZADOR
Treblinka é um filme que se foi construindo lentamente, num processo que não tinha um plano pré-estabelecido.

Há cerca de cinco anos escrevi um projecto de documentário sobre uma sobrevivente do Holocausto, Marceline Loridan-Ivens – a viúva de Joris Ivens – enviada aos 13 anos para os campos de Auschwitz-Birkenau. Perdeu o pai em Auschwitz e trabalhou como prisioneira em Birkenau. A experiência marcou-a para toda a vida.

Quando encontrei Marceline pela primeira vez, reconheci e admirei nela a sobrevivente. Muitas das testemunhas do horror absoluto puseram fim à vida enquanto estavam nos campos; muitas outras suicidaram-se depois de regressarem à vida normal.

Inicialmente, eu tinha a intenção de construir um documentário baseado em conversas e focando essencialmente as memórias de pessoas desaparecidas, mortas, que acompanham os sobreviventes ao longo da vida. Como fantasmas.

Marceline costumava dizer: “Odeio comboios, não importa para onde vão”. Ela sentia que todos os comboios se dirigiam para Auschwitz. Numa tentativa de evocar esse lugar impossível entre a vida e a morte, decidi rodar o filme a bordo de comboios de longa distância na Europa do Leste. O conjunto das filmagens realizou-se em três países: Polónia, Rússia e Ucrânia.

Tratando-se do Holocausto, era expectável que todas as filmagens decorressem em comboios polacos ou nos diversos campos que visitei durante a minha pesquisa – Treblinka, Auschwitz, Birkenau, entre outros. Mas o turismo de massas que se apoderou dos centros de memória do Holocausto perturbou-me e levou-me a pensar sobre a banalização do horror absoluto, que poderia ser um equivalente perverso da banalidade do mal, estudada por Hanna Arendt.

Totalmente em contraste com o turismo organizado do Holocausto, estão duas experiências muito fortes que tive ao ler textos importantes sobre os campos da morte: Treblinka : a survivor’s memory, de Chil Rajchman (mal conseguia respirar enquanto lia) e a investigação de Gitte Sereny Into That Darkness, com centenas de horas de entrevistas cruzadas centradas em Frank Stangl, o comandante-chefe de Treblinka.

A leitura desses livros fortaleceu em mim o sentimento de que as palavras podem ser mais fortes que as imagens. Sobretudo hoje, quando as imagens do horror se tornaram tão banais.

Ao mesmo tempo, nestes últimos anos, com a actualidade da guerra na Síria, o lado mais negro da humanidade – em todo o seu horror e indiferença – esteve sempre presente enquanto eu trabalhava neste filme. Creio que viver entre fantasmas é uma experiência partilhada por homens e mulheres de muito diferentes. Todos os que sobreviveram a um massacre: as vítimas dos campos Nazis, mas também os sobreviventes de genocídios no Cambodja, no Ruanda, na Bósnia ou, mais recentemente, na Síria e no Iraque.

Treblinka é um filme de vozes e de corpos nus, a maior parte das vezes reflectidos nas janelas de um comboio. O público pode sentir-se desconfortável com a estética das imagens. Pode parecer contraditório falar do horror utilizando imagens belas. Mas, ao longo da história da arte, a beleza tem sido sempre utilizada para retratar as mais horrendas situações. E é através desta forma de expressão que é possível evocar e reflectir.

Quase todos os textos deste filme são traduções russas das memórias de Chil Rajchman; algumas outras são conversas de que me recordo ter tido com sobreviventes.

«Quem sou eu?» e «Por que continuarei a viver?» são questões repetidas sem fim pelos que resistem.

– Sérgio Tréfaut

Crítica

“Intransigente rigor. O grande cinema está aqui.”
João Lopes, Diário de Notícias
“A verdade é que se trata de um belo filme, um dos poucos filmes sobre o Holocausto que, mais do que à compaixão, apela à reflexão.”
Esther Mucznik, PÚBLICO
“Se não leram “Se Isto É Um Homem” de Primo Levi, vejam o filme “Treblinka” de Sérgio Tréfaut. Se leram, vejam na mesma. É duro, como tem de ser. É bonito na sua dureza.”
Ricardo Paes Mamede
“É um filme impressionante sobre tudo aquilo que não se vê, povoado de fantasmas que viajam num comboio. O mais importante é tudo aquilo que está fora do ecrã, que somos convidados a imaginar.”
Manuel Halpern, Visão
“Treblinka é um objecto inusitado onde há uma estranha beleza na revisitação do que não pode ser representado”
Jorge Leitão Ramos, Expresso
“O mais arrojado e arriscado dos documentários que Tréfaut assinou até hoje”.
Vasco Baptista Marques, Expresso
“Além do seu mérito artístico, este filme tem o mérito pedagógico em não deixar esquecer uma memória que é útil para o presente e para o futuro.”
Marcelo Rebelo de Sousa na antestreia de TREBLINKA
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